Depoimentos

Um arauto rompe o silêncio

Em 2 de outubro de 2019, um membro dos Arautos escreveu uma carta ao conceituado vaticanista Marco Tosatti para compartilhar com ele algumas reflexões acerca dos procedimentos canônicos de que estavam sendo objeto os Arautos do Evangelho. Sem entrar no mérito das apreciações que contém, julgamos oportuno que esta carta, tendo sido reproduzida já em vários meios, fosse publicada aqui para ajudar a contextualizar os nossos leitores.



Prezado Dr. Tosatti,

Sou um leigo celibatário, de 67 anos, formado em Direito Canônico. Como membro da TFP, fui auxiliar de seu fundador, o Prof. Plinio, durante anos. Hoje, continuo minha jornada nos Arautos do Evangelho. Não tenho nenhum cargo diretivo na entidade, mas pude acompanhar de perto todo o processo relativo à Visita Apostólica designada pela Santa Sé, participando, inclusive, da comissão de especialistas responsáveis de preparar o dossiê de “Resposta às Perguntas Finais” levantadas pelos visitadores, devido às acusações, sem fundamento, de um grupelho de ex-membros pouco aficionados ao carisma. Por conseguinte, tenho conhecimento de causa.

Escrevo o presente relato por iniciativa própria, contrariando, é preciso dizer, a indicação de manter o silêncio, em vigor entre nós. Assim, depois de uma profunda reflexão diante de Deus, me sinto no dever de consciência de defender minha honra pessoal e a de muitas almas que procuram colaborar com o fecundo apostolado da Associação pelo bem da Igreja.

Há muito tempo venho acompanhando seu trabalho, prezado Dr. Tosatti, e admiro sua coragem. Por esta razão, creio ser o senhor a pessoa mais indicada para trazer a lume este meu testemunho, que foi motivado, sobretudo, pela notícia do Vatican Insider, assinada por Salvatore Cernuzio (28/9/2019): “O Vaticano comissiona os Arautos do Evangelho, a associação brasileira de estranhos exorcismos, sob investigação desde 2017”.

Com efeito, diversos órgãos de imprensa mundiais logo deram a notícia do Comissionamento dos Arautos. Já esperávamos informações sensacionalistas ou falsas. A surpresa desagradável foi que a reação mais agressiva veio da parte de quem muitos consideram como o veículo oficioso de certo setor curial fervoroso dos ventos da ‘misericórdia’.

Qual seria a causa disso? Cui bono? Ou seja, a quem beneficia? Não sabemos, mas aqui estão alguns indícios.

I) Quanta carência…

Começamos pela palavra inicial do artigo de Cernuzio: “carência”, fazendo referência àquilo de que os Arautos, supostamente, padecem. Qualquer cristão sabe que só Deus é isento de qualquer tipo de “carência” (S. Theol., I, q. 4, a. 2, co.). No entanto, é difícil ver onde e como a Associação tem “carência” de vocações, de governo ou administrativa. Sobretudo se contemplamos o panorama católico hodierno, tão cheio de “carência”. Sou honesto em reconhecer que ninguém é bom juiz em causa própria, mas, por outro lado, não podemos negar a verdade pública conhecida enquanto tal: o declínio das vocações, os problemas de governo e administrativos graves que existem em muitos institutos. A Irmã Auxiliar do Comissário nomeado para os Arautos, por exemplo, é Superiora Geral das Irmãs da Divina Providência, que hoje conta com 928 religiosas, contra as 1411 que eram em 2005. Mencionamos exatamente a Divina Providência para que a reverenda madre nos oriente, de maneira a evitar que suceda conosco o mesmo que sucedeu a elas…

Por outra parte, podemos constatar com tristeza uma “carência” no artigo de Cernuzio e é a de um princípio básico da justiça, tão bem acolhido pelo código deontológico do jornalismo: “Audiatur et altera pars”. E não é só isso. O Código de Direito Canônico declara (cân. 1526) “onus probandi incumbit ei qui asserit” – “o ônus da prova recai sobre aqueles que acusam”. De fato, o juiz tem a obrigação de interrogar as partes antes de proferir a sentença (cân. 1530) “partes interrogare semper potest, immo debet”. Cernuzio se autodenominou juiz, mas “carente” de toda competência jurídica, não aplicou ao caso os princípios próprios da justiça, pois, ao que me parece não procurou nenhum de meus confrades.

Depois de repetir as supostas “carências” que, entre outras coisas, constam no site Vatican News como sendo as razões jurídicas, tanto da visita quanto do comissionamento, Cernuzio tenta exumar uma antiga controvérsia sobre supostos exorcismos, já amplamente esclarecida a diversos órgãos de imprensa, a diversos bispos locais e ao próprio Vaticano, no referido dossiê de 572 páginas – acompanhado de 42 volumes, contendo 75 anexos, totalizando mais de 18 mil páginas de documentos e publicações –, com as explicações detalhadas sobre estes e outros eventos. No que diz respeito aos supostos exorcismos, o caso foi considerado encerrado pela autoridade judicial da Diocese interessada, sem que tenha sido assinalada qualquer violação das regras canônicas ou litúrgicas. Então, por que reacender uma controvérsia já arquivada? “Res iudicata pro veritate habetur”: a sentença jurídica julgada deve ser considerada como uma verdade.

II) “Estranhos exorcismos” ou prática imemorial da Igreja?

A história dos exorcismos incriminados, basicamente, se tratava de “orações de libertação”, recomendadas inclusive para leigos e leigas, amplamente difundidas no orbe católico, como previsto no próprio Ritual Romano: De exorcismis et supplicationibus quibusdam. No caso em análise, não se tratava de um “exorcismo solene”, ato de culto público da Igreja, mas apenas de invocações ad libitum contra os espíritos das trevas, eficazes em tantos casos ex virtute charismatis; como fizeram tantos católicos ao longo da História, vários deles canonizados, como Santa Francisca Romana e São Pio de Pietrelcina.

Em uma situação de vexação diabólica é dever de caridade de todo cristão – a fortiori de um sacerdote – procurar a cura espiritual da alma “carente” de auxílio sobrenatural. Isso não é senão misericórdia, ou estou errado? A prova da naturalidade desses fatos emerge dos testemunhos de agradecimento – quero crer que tenham sido conservados com cuidado em arquivo – enviados aos membros da instituição, da parte de tantíssimas pessoas beneficiadas. Se os frutos são bons, não o será também a árvore?

III) Culto a uma espécie de “trindade” ou virtude ligada à justiça?

Nas páginas de certa imprensa anticatólica brasileira, a quem vem unir-se agora Vatican Insider, está se tornando comum a mania de confundir a veneração ou o respeito devotado ao Prof. Plinio Corrêa de Oliveira, a Dona Lucilia, sua mãe, e a Mons. João, com “adoração”.

Como se sabe, a objeção contra qualquer tipo de culto a homens ou mulheres é de perfil protestante, uma vez que no seio dessas denominações separadas da Igreja Católica foi eliminado todo tipo de veneração ou respeito a pessoas que o merecem, considerando tal prática como um gênero de idolatria, em favor do que eles chamam Cristocentrismo bíblico.

Não é preciso ser teólogo para saber a diferença entre o respeito e a honra devidos aos superiores (ver S. Theol., II-II, q. 102-103), e o culto de latria reservado somente a Deus. Até os pagãos homenageavam as pessoas consideradas excelentes entre eles. De outra parte, não é necessário ser formado em Direito Canônico para perceber a diferença entre culto público e culto privado. A questão foi claramente elucidada pelos Arautos em diversas publicações e na própria “Resposta às Perguntas Finais” da Visita Apostólica, acima referida.

Em síntese, todo fiel pode e deve, em virtude da justiça e do quarto mandamento do Decálogo, considerar dignas de respeito as pessoas investidas de autoridade ou virtuosas, como diz o Apóstolo: “Reddite omnibus debita: […] cui timorem timorem, cui honorem honorem” (Rm 13,7).

Então, devemos levar em conta que não é a canonização que torna uma pessoa santa, mas é porque alguém é santo que vem a ser canonizado; e, de fato, é a “fama de santidade” entre o povo de Deus o que leva a iniciar os processos canônicos. Nesse sentido, a fama de santidade do Prof. Plinio e, sobretudo, de sua mãe, Lucilia, se estendeu muito além dos círculos dos Arautos do Evangelho. Com efeito, é enorme a quantidade de depoimentos acerca de graças recebidas, sejam materiais ou espirituais, da parte de pessoas de todas as condições, países e idade.

IV) Milenarismo ou profetismo?

Também é estranho rotular os Arautos como estregues a uma espécie de “culto secreto e extravagante feito de teorias milenárias levantadas por causa de Nossa Senhora de Fátima”. Primeiro, não se pode confundir milenarismo com profetismo. Com efeito, em 2007, Bento XVI declarou, a respeito da mensagem de Fátima: “é a mais profética de todas as aparições modernas”.

Naquele mesmo ano, em contrapartida, durante a visita apostólica ao Brasil, o Pontífice usou a palavra “milenarismo”, numa das poucas vezes no magistério recente. E com que finalidade? Para se referir à Teologia da Libertação como sendo um milenarismo fácil, “uma mistura errada entre Igreja e Política”. Porém, como se sabe, os Arautos não estão mais interessados em discussões políticas. Uma outra vez o milenarismo foi atribuído por São João Paulo II a movimentos ligados à New Age, filosofia vazia, de cunho gnóstico, que goza de simpatia no seio de outras congregações, mas não entre os Arautos, como é evidente.

Finalmente, atribuir aos Arautos o apelativo “milenarista” é uma contradictio in terminis. Primeiro de tudo, porque eles se encontram nas trilhas do movimento contrarrevolucionário; segundo, porque foi afirmado pelo Vatican News. Entretanto, como se sabe, esse movimento é diametralmente oposto à “revolução de massa”, pretendida como um meio de alcançar o suposto reino mundano, característica típica dos movimentos milenaristas.

Os Arautos, também, foram considerados por Bento XVI como uma Associação capaz de frear a expansão das seitas, muitas delas consideradas pelo próprio Ratzinger, no livro Rapporto sulla Fede, como sendo de caráter milenarista. E isso é precisamente porque, segundo ele: “A valorização correta de mensagens como a de Fátima pode ser uma espécie de resposta [ao crescimento das seitas, em particular aquelas apontadas como milenaristas]”. Concluindo, creio que Cernuzio está realmente errado: de acordo com o recente magistério da Igreja, os Arautos e sua devoção à mensagem profética de Fátima são uma realidade oposta ao milenarismo.

V) Algumas curiosidades para terminar…

É curioso que Cernuzio afirme que já estava em curso uma “investigação aprofundada envolvendo o Instituto” por ocasião da renúncia do fundador, quando na realidade a visita nem havia sido anunciada.

É curioso que o comissionamento tenha sido decretado (com um erro básico que poderia invalidá-lo ao menos parcialmente), apesar de as evidências mostrarem não haver nenhum fato consistente para justificar tal medida.

É curioso que um jornal, que se supõe tão atualizado, tenha omitido uma informação bem conhecida pelas autoridades vaticanas, isto é, a parcialidade evidente de um dos visitadores contra os Arautos. Fato confirmado de acordo com os documentos que tive diante dos meus olhos.

Enfim, a notícia do Vatican News descreve o fundador dos Arautos como “ex-membro da associação católica tradicionalista e contrarrevolucionária brasileira TFP”. Com todo o mundo sabe, o fundador da TFP é o Prof. Plinio Corrêa de Oliveira, grande líder católico de reputação mundial. Ele mesmo, no longínquo ano de 1979, desmascarou a intenção de certa ala mais “avançada” da Igreja, num livro cujo título já revela seu teor profético: “Tribalismo indígena, ideal comuno-missionário para a Igreja do Século XXI”.

Em suma, me parece altamente simbólico que parte desta facção, herdeira da teologia da libertação camaleônica – hoje, depois de estranha metamorfose, transformada numa espécie de eco-teologia –, na iminência do Sínodo da Amazônia, tenha decretado sacrificar sobre o altar da “mãe terra” uma instituição que, tanto em sua origem como em sua espiritualidade, tenha uma ligação tão estreita com o Prof. Plinio.

Além de suas intenções, uma coisa eu sei e creio: as obras de Deus são imortais!


Publicada originalmente em: www.marcotosatti.com

(*) M. Jiménez é Doutor em Direito Canônico pela Pontifícia Universidade São Tomás de Aquino – Angelicum (Roma).

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9 comentários

  1. Marise G.Pitella says:

    Somos uma família católica praticante e bem ativa na paróquia, quando conhecemos os Arautos nos assustamos um pouco, tudo era diferente. Mas aos poucos fomos percebendo que nada era diferente era feito diferente. O grande respeito e devoção a Eucaristia e N Sra, nos chamou a atenção. Foi um chamado tão forte de N Sra, que não pudemos mais voltar atrás, hoje participamos ativamente nos Arautos e podemos afirmar, eles fazem lavagem cerebral , mas e para retirar todo lixo e nos encher de valores e princípios . Temos só 2 filhos biológicos mas um exército de filhos e filhas do coração , somos uma família ou melhor uma grande família Arautos.

  2. Julio Pavez Cordero says:

    Excelente refutação!!!!
    Muito lógica, respeitosa e de alto nivel teológico.
    Mas, nem respondendo o propio Santo Tomás de Aquino, aqueles sujeitos aceitariam. Eles só obedecem o gestor da má fé…

  3. Geraldo Alves Curcio says:

    Repassando as hipocrisias desses fariseus, a gente sente o sangue ferver nas veias e recorda os tempos em que nas praças e ruas das cidades bradavamos com megafones contra a podridão deles. Ah, que esse tempo cheguem logo!

  4. Emerson de Siqueira says:

    Salve Maria.
    Ser Arauto hoje, em minha vida e de minha esposa e filho, e estar marcado com como no batismo e na comunhão mais um sinal de que estamos no caminho certo do Reino de Maria que esta prestes a vir pelo menos em nossas vidas e País. Estamos necessitando muito de uma intervenção de todos os católicos.
    Salve Maria!!!

  5. Edson Fontana says:

    Quando leio coisas assim, dos Arautos do Evangelho, mais eu creio que Plínio Corrêa de Oliveira está vivo. São palavras, cheias de sabedoria, lógica, inteligência, combatividade e astúcia a serviço da Verdade.

  6. Paulo Ortiz says:

    Muito Claro! O absurdo é um leigo ter que ensinar o “bê a bá” do Catecismo a Eminência e Excelência… Há má fé neles. Por fim uma perseguição religiosa impulsionada por um “dinossaurio” Braz de Aviz que gosta muito de mulher.
    https://m.facebook.com/story.php?story_fbid=455199165349072&id=100025769762326

    1. Maria das Graças Bitencourt de Melo. says:

      No mundo tudo passa e somente Deus fica!
      Continuem Arsutos ensinando e vivendo a Verdade porque tudo e todos passarão, ficará apenas a Verdade na íntegra proclamada por vcs e por todos que anunciam corajosamente a Sagrada Escritura!

  7. Claudia Lucília says:

    O nível de formação dos Arautos DO Evangelho é impressionante! Quem escreve é apenas um leigo consagrado. Imagina os padres Arautos!!!

  8. Maria Lucilia Seraidarian says:

    #AmoOsArautos

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